Triste SaudadeE assim se dá o regresso. Em expresoes de tristeza na cara de quem viajou.
Saudade... de que? de quem?
Quando sai de portugal fui de cabeça baixa e farto da vida que aqui levava, da monotonia, da facilidade das coisas, do garantido que elas me pareciam e da maneira como tudo na vida me parecia uma sucessao inevitavel de acontecimentos, onde eu já tinha o meu papel ? muito definido. No momento em que entrei no aviao tudo isto passou, deixei de me sentir preso, de sentir o sufoco de uma vida que teima em nao deixar respirar e deixei de sentir que sentia o meu triste sentir de nao querer sentir.
Os primeiros dias foram dificieis, estar longe do unico sitio que algum dia tinha conhecido e longe das pessoas que sempre tinha visto. Depressa reduzi tudo o que precisava, tudo o que tomava como garantido e vital a um minimo. Comida, cama, duche e roupa lavada seriam os meus companheiros. Longe do conforto do lar, encontrei-me no meio deste conforto simples e honesto. Onde a comida pode ser boa ou má, a cama pode ser confortavel ou desconfortavel e onde o duche e a roupa lavada servem para nos lembrar que somos homems, e como homems devemos enfrentar o dia novo que s?o todos os dias. Foi assim que trabalhando arduamente encontrei prazer nas coisas pequenas da vida, como andar de cabelo ao vento na traseira de uma pick up americana, com o frio da noite a ser aparado pelo casaco que vestia, apos um dia extunuante de trabalho, onde o simples era tido como complexo e se tornava em simples ao primeiro gesto. Trabalhei muito arduamente nos primeiros dias no ohio, talvez se as pessoas que trabalharam comigo e que sempre fizeram aquilo dissesem que me faltava sentir o corpo cansado, apos passar anos naquilo e sentir a tristeza que lhes vai na alma por saberem que aquilo é tudo o que tem, e que nao tem maneira de fugir do paraiso, que lhes alimenta, veste e abriga mas que nao enriquece a alma, senao com o calor das outras almas geladas que vagueiam pela noite. Como a minha, e como as deles. Um grande bem haja a voces Adam, Paulette e John. Pois que nunca soube os vossos apelidos, e nunca precisei de saber, porque apenas um conseguia descrever-vos. Nao por nao serem grandes, mas por serem gigantes, que apenas precisam de um só nome. ( Alexandre, Helena e Socrates)
Quando fui-me embora do Ohio, era com enorme alivio que o fazia, porque ja nao suportava ter que aturar o meu ignorante da sua limitaçao patrao. E por saber que ali ja tinha aprendido o que queria saber, que nem toda a gente tem sorte, que aos que nasceram sem sorte resta-lhes apenas conquistar sobre o azar e proteger-se uns aos outros, como fizeram connosco.
Eis que em Washington me tornei salva vidas, e melhorei o meu corpo, moldei-o a necessidade de andar mais depressa na bicicleta, de melhorar os reflexos para salvar uma vida, de ser mais rapido para agir antes que fosse tarde demais e de fazer tudo a dobrar por saber que o imprevisto acontece e para ai nem o dobro de nos é suficiente. Encontrei pelo meio uma agradavel sorriso, que vinha da russia e que sempre que a ia acordar ? cama tinha um sorriso lindo nos seus finos labios gelados. O seu cabelo era da cor do ouro. Os seus olhos azuis tiravam a saudade da terra que é abraçada pelo mar e que me viu nascer. E o seu doce cheiro era como se um bebe fosse dado ? luz no meio de um campo de rosas e tivesse a cabeça de um homem de 100 anos para apreciar o cheiro complexo que uma simples fragancia tem. Abordei-a de maneira original, disse-lhe tudo o que pensava na altura em que falava com ela e fiz o que queria sem pensar como ia reagir. Disse-lhe que lhe dava o prazer da minha companhia se me pagasse um gelado, ao que ela aventurosamente se propos a desafiar, a minha capacidade de inovar apenas para cedo se render aos encantos de um jovem que perante tal beleza nada mais queria que a sua companhia e um gelado. E se esta nao fosse possivel, entao um gelado, que sabe sempre bem em qualquer local.
Deixei-a com um adeus, ela deixou-me com uma pulseira.
Apos o meu trabalho estar terminado voltei a Nova York, numa viagem de autocarro que estava cheio de memorias e que seria a ultima naquele pais.
Autocarro onde tinha conhecido pessoas que me acusaram de furar a linha e que depois receberam-me na simpatia das suas palavras quando viram a verdade das palavras que lhes dirigia na sua lingua. Autocarro que veio com alivio por saber que nao iamos para casa de Steubenville para Nova York, mas sim para trabalhar mais uns meses até setembro. E janela aberta para a america, onde o pobre viaja confortavel de autocarro, o menos pobre desconfortavel em longas viagens no seu carro, o normal antiquado viaja de comboio pela recordaçao que lhe traz dos velhos filmes de cowboy e onde o modermo, saloio, velho e bizarro viaja de aviao, por ter o dinheiro que lhe permite andar a 10.000 pés de altitude a comer a mais pequena refeiçao da sua vida enquanto muda de cidade no seu gigantesco pais.
Nova York nunca ficara velha para mim, nem para o mundo. Chama-lhe a grande maça. Nutritiva, cheia de pequenos saborosos momentos que se abre ao palato em cada dentada, assim é esta grande, pequena cidade. Onde nunca se dorme, apenas se faz um intervalo. Aqui vi a minha primeira peça da Broadway onde actores profissionais faziam aquilo que sonho, representavam em cima de um palco do tamanho do mundo onde tudo pode acontecer e onde tudo acontece. Despertou-me para a dimensao da experiencia que estava a viver e para quem era, sou, e serei.
Tudo era grande e nunca me senti pequeno, porque soube que era tudo construido por homens de pequena estatura mas de grandes espiritos, como os mexicanos que hoje trabalham 18 horas por dia, para um dia o seu corpo ser grande como a alma que os faz dedicar-se ao trabalho com tamanha paixao e rigor.
Ao voltar para aqui, vi que estava tudo na mesma. Disseram-me que eu tambem nao tinha mudado que continuava com a mesma cara. E verdade é que a minha cara nunca mudará, apenas o que ela conta a fará parecer diferente aos olhos de quem a reencontra. Fiquei suprendido por ver que tudo ficara na mesma e que os problemas do passado eram o do futuro e por sentir que eles se iriam se repetir para sempre.
Deus sabe o bem que sabe estar com todos os meus amigos e ouvi-los falar das suas vidas e de tudo o que se passa em volta deles, e o mesmo Deus sabe o quanto nao quero continuar a viver a vida que tinha quando daqui sai, e sim a vida que me faz contente e que para viver tantas vezes lhe pedi direçao e um toque divino.
mudado, apenas com a mesma caraRicardo Pascual