Shitty movie. Nice cigar though...Hoje dei por mim a pensar no quanto eu falo da vida alheia. Não da vida alheia que eu não conheço ou da vida alheia que conheça ou não, deve ser falada para que as senhoras reformadas tenham alguma coisa para fazer nas manhãs ou nas tardes dos dias da semana - aka tertulia cor-de-rosa e coisas afins...
Refiro-me mesmo à vida alheia mais próxima que eu tenho, a vida dos meus amigos. E mais grave de tudo, não a vida mesma alheia no sentido exacto, o comentar - mesmo que sem malícia - quando essa pessoa não está presente. Refiro-me às longas conversas que tenho com os meus amigos, quando debatemos os 2 os problemas, os sonhos, as ansias dessa pessoa. E refiro-me a todos os conselhos plenos de lucidez que lhes dou. E a sério que eu penso que são os melhores conselhos que alguém lhe pode dar e gosto de sentir que do outro lado o sentimento seja mútuo.
Só que hoje verdadeiramente percebi que eu não tenho autoridade alguma para dizer seja o que for. A sério que não! Eles são meus amigos, sim. Eu conheço-os bastante bem, também! Mas eu não vivo na pele deles, não sinto o que eles sentem. Eu sou um mero espectador. Tudo o que eu diga, faço-o recorrendo apenas à mera e fria razão. - é-o, costumo para mim dizer, o grande motor, eu ser a razão e os outros o sentimento. Mas não, nem assim. Quem sou eu para falar de sacos de plástico que boiam nas águas do Tejo? Em primeiro lugar, eu acho que nunca sequer parei para pensar nos meus sacos de plástico, ou sequer, se tenho algum! Em segundo lugar, que autoridade tenho eu para falar dos sacos de plástico alheios? Para sequer ser digno de poder comparar sonhos alheios, tidos e cumpridos com sacos de plástico? Eu não posso dizer aos restantes, que a vida deles é 1 sucesso ou 1 fracasso, que as linhas a serem seguidas são estas ou aquelas ou aqueloutras. Será por isso que os conselhos que me dão fazem lembrar os votos dos camponeses, porém cidadãos romanos? 1 voto por 250 camponeses, 5 votos por patrício? (sendo eu um patrício, e quem me dá os conselhos, um camponês - matematicamente daria qualquer coisa como, por cada 1500 conselhos que me dão, sigo 1...)
Eu não posso simplesmente continuar a entrar na vida dos outros desta maneira. A falar como se em mim se encerrassem todas as verdades do mundo, esperando que todas as pessoas simplesmente me provem que tenho razão, que me dão razão e que vão seguir todos os meus passos e ditos. Não que eu verdadeiramente queira que alguém siga o que eu digo que deveria ser o caminho a seguir, o melhor...
Não encontro em mim autoridade para dizer "segue o teu sonho" ou "guarda-o na gaveta, cobarde!" Mesmo que mil vezes me apeteça chamar cobarde a quem quer que seja, mil vezes me apeteça abanar essa pessoa, mil vezez me apeteça dizer-lhe que está a fazer merda, merda, merda.
Alguém me ha-de dizer que isso é que é ser amigo. Provavelmente é. Provavelmente todos os meus amigos me abrem as portas para que na vida deles eu entre, não uma intromissão, uma entrada forçada, mas um convite. Mas só hoje, verdadeiramente... só hoje percebi o quão incómodo pode ser convidar alguém para nossa casa e - mesmo que amigo - se sente com os sapatos em cima do nosso sofá, beba do nosso melhor vinho e diga toda a merda que quiser sobre nós, sobre a nossa vida. Mesmo que essas palavras se transformem em asas, as asas que nos façam voar. As asas que nos fazem simplesmente vender a casa, destruir os sofá e as garrafas e sair de casa rumo ao sonho...
Eu não posso provocar esse buliço em alguém. Já basta o enorme encargo de ter um coração, algures, a bater por mim. Eu não posso ser o responsável por um sonho cumprido, mesmo que esse fosse - e seria! - o meu maior objectivo. Não! Obrigar alguém a levantar o rabo do sofá ou o corpo da cama para cumprir um sonho, era heroicamente ridiculo e arriscado.
E não. Eu não quero que ninguém me dedique um óscar. Contento-me em apreciá-lo na vitrina. De preferência sem os pés em cima do sofá, sem a garrafa bebida.
...mesmo que eu saiba que vou continuar a beber garrafas e a sentar-me em sofás alheios para o resto da minha vida. Enquanto me convidarem. Enquanto quiserem que eu dessas casas faça parte... Com o maior dos prazeres. Como se a minha vida disso dependesse...